Ônibus estaciona em pontos diferente todos os dias. Graça e mais três fisioterapeutas já realizaram 60 mil atendimentos em dez anos de trabalho

Seu Expedito começa a jornada ainda de madrugada. Ele dirige a clínica de fisioterapia da Maria de Las Gracias, a Graça.

Era um projeto antigo, e há dez anos a Graça conseguiu levar o sonho dela para as ruas. Uma clínica de fisioterapia sobre rodas. Faça sol ou faça chuva, todos os dias o ônibus estaciona num ponto diferente da periferia de São Paulo. E onde ele para tem sempre muita gente para embarcar.

Eles vêm de perto e de muito longe também. A distância não é um problema para Dona Iraci. Ela teve um derrame há dez anos e nunca conseguiu atendimento adequado no serviço público de saúde. Há poucos meses, ouviu falar da fisioterapia itinerante e entrou no ônibus da Graça.

Graça investiu todas as economias para comprar e transformar o ônibus por dentro e por fora. E com quase 30 anos de estrada, ele ainda aguenta o tranco. Ela divide o trabalho com mais três fisioterapeutas. Juntas, elas já fizeram diferença na vida de muita gente: nesses dez anos, 60 mil atendimentos.

E não precisa de propaganda – é pelo boca-a-boca, ou por pura curiosidade, que os pacientes vão chegando.

Maria de Las Gracias, fisioterapeuta: Cada um tem uma história. Cada um me deixa uma lição.
Globo Repórter: Por que você fica tão emocionada quando fala isso?
Maria de Las Gracias: Porque a gente é feliz aqui. Nós somos felizes aqui. Então, assim, não é uma emoção de tristeza. É uma emoção de alegria. É uma emoção de energia.

A sessão de fisioterapia tem preço popular: R$ 23. Boa parte do dinheiro é para bancar o combustível e a manutenção do ônibus.

O encarregado obra de Samuel Pinheiro conta que ficou seis meses sem trabalhar e sem jogar futebol por causa da dor. E afirma que se não fosse o preço cobrado pela Graça ele não teria como fazer o tratamento.

O ônibus da Graça também trouxe esperança para o Ivan. A mulher dele, a Márcia, teve um aneurisma com 29 anos.

Ivan José da Cunha, porteiro, marido da Márcia: Vivia de fraldão, graças a Deus hoje não tem mais isso.
Maria de Las Gracias: A Márcia hoje é uma pessoa ativa, ela toma conta dos filhos dela, ela arruma a casa dela, ela toma conta do marido.

“Por isso que eu estou aqui, entendeu? Porque é a minha profissão, e eu não abro mão dela. Então, eu vou até o fim. Enquanto eu não resolvo um problema, eu não saio dele”, afirma Maria de Las Gracias.

Os pacientes agradecem e retribuem com a delicadeza dos pequenos gestos. Dona Maria levou curau para a equipe. Quem a vê chegando com bandejas nas mãos, nem imagina que um derrame a deixou de cama, com o lado esquerdo paralisado. Aos 57 anos, ela reaprendeu a andar, falar, e até a cozinhar.

“O clima daqui é bom. Elas põem a gente pra cima”, conta a dona de casa Maria das Graças Santiago, a Dona Maria.

“Eu, se tivesse que vir todos os dias eu viria. Não é só o tratamento da fisioterapia. É um trabalho humanitário”, define uma paciente.

Fonte – Globo.com

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