Sem brincadeiras ao ar livre, crianças ‘correm’ para a fisioterapia

Jogos em espaço aberto desenvolvem músculos fortes, alongamento e planejamento motor

Na fisioterapia, as crianças desenvolvem as capacidades que não desenvolveram no dia a dia

RAQUEL SODRÉ
Subir em árvores, brincar em balanço, escorregador, jogar queimada, rouba-bandeira e pega-pega não são importantes só para construir memórias doces da infância. Essas brincadeiras desenvolvem uma série de habilidades, capacidades e atributos físicos nas crianças que impedem que elas precisem, cada vez mais cedo, de sessões de fisioterapia.

Apesar de não existirem estatísticas sobre o assunto, os especialistas percebem um aumento na procura dos tratamentos por pais de crianças que, antes, não frequentavam as clínicas.

“Antes, atendíamos muitas crianças portadoras de alguma síndrome, ou com problemas motores, ou com sequelas pós-cirúrgicas. De um tempo para cá, temos recebido crianças de desenvolvimento típico – sem nenhum tipo de doença ou síndrome – que estão chegando com queixas de alteração postural, dores nos joelhos e nos pés e encurtamentos musculares mais severos, que atrapalham até na hora de andar”, conta a fisioterapeuta Isabela Campos, uma das sócias da Clínica Sentidos, que é especializada no atendimento fisioterápico pediátrico.

Segundo a especialista, o perfil mais comum é o de crianças e pré-adolescentes, com idades que vão dos 9 aos 12 anos e moram em apartamento. “Muitas vezes, são crianças que até têm alguma atividade complementar, mas não têm oportunidade de brincar ao ar livre e explorar os espaços”, diz Isabela.

Brincadeiras ao ar livre são importantes, de acordo com a fisioterapeuta, para superar medos, ficar mais confiante, fortalecer a musculatura, melhorar o alongamento e desenvolver seu planejamento motor, ou a capacidade de ocupar adequadamente o espaço onde está.

Vilão. O problema fica mais sério porque o maior inimigo de boa parte das crianças, atualmente, cabe dentro do bolso. “As crianças fazem muitas atividades extracurriculares, mas a maioria delas, sentadas. O hobby está sempre na internet, e o que achamos mais grave é a facilidade da internet no celular. Na escola, em vez de ir correr no recreio, cada uma senta com seu celular. Você não vê mais criança carregando bola. Ela carrega um tablet”, destaca a fisioterapeuta Flávia Massar Cipriani, diretora do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional de Minas Gerais.

Quem viu bem os efeitos dessa facilidade de acesso à internet foi Jocimar Martins, 44, mãe de João Vitor, 9. Apesar de morar em uma casa espaçosa e brincar bastante ao ar livre, João acabou indo parar na sala de fisioterapia no mês passado. “Nas férias, nós relaxamos, e ele acabou usando o smartphone e o tablet sem controle. Voltou da viagem com dores nas costas”, conta a mãe.

Na fisioterapia, João fez alongamentos e exercícios para melhorar a postura, além de ter sido orientado sobre a forma correta de usar os gadgets. “O tratamento foi rápido. E agora, com as orientações, ele está mantendo”, diz Jocimar. De volta à rotina normal, João está usando a internet só nos fins de semana.

Apesar de não haver uma medida específica do tempo que as crianças devem brincar ao ar livre, o mais indicado é que elas tenham oportunidades, todos os dias, de frequentar espaços abertos, como praças, parques, clubes ou até nas áreas comuns do prédio para que possam explorar os espaços.

Má postura pode estar relacionada à dificuldade de concentração

Os danos causados pelo excesso de tempo passado sentado pode extrapolar a parte física e chegar até o aprendizado das crianças. De acordo com a fisioterapeuta Isabela Campos, algumas vezes, a má postura pode atrapalhar as crianças a se concentrarem nas aulas e também a fazer as tarefas de casa.

“Costumamos receber crianças aqui com a recomendação da escola, pois são crianças agitadas, desatentas e com dificuldade de concentração. Quando vamos analisar, percebemos que elas não têm déficit de atenção. O problema está na postura”, conta ela. Nesses casos, o que acontece é que o desvio postural é tão importante que a criança fica preocupada em como se manter todas aquelas horas sentada na cadeira e acaba perdendo a atenção na aula.

A melhor forma de evitar isso é a boa e velha brincadeira. “(É preciso) pôr essas crianças para brincar, voltar a frequentar clubes, praças, deixar as crianças frequentarem as áreas comuns dos prédios. Criança precisa explorar para se desenvolver”, orienta.

Fonte – http://www.otempo.com.br/