Fisioterapia é essencial para a qualidade de vida das crianças com microcefalia

Sustentar o pescoço para levantar a cabeça ou o tronco, e com isso poder ficar sentado, está entre os marcos de desenvolvimento que os bebês geralmente atingem até os seis meses de vida. Para as crianças com diagnóstico de microcefalia, no entanto, a expectativa é diferente. Por conta das particularidades de cada caso, a depender de qual área do cérebro foi afetada pela malformação, não há etapas definidas por idade. Cada criança tem um desafio diferente a superar e um tempo adequado para se desenvolver.

Há crianças com microcefalia que não apresentam dificuldades motoras. Outras, contudo, não conseguem andar. Quanto mais grave for o comprometimento, maior a importância da fisioterapia no tratamento de habilitação dos pequenos.

A auxiliar de enfermagem Grazielly Leonardo Cristaldo, de 25 anos, viu seu filho Leandro Kauan obter avanços impressionantes depois que encontrou o tratamento adequado. “Meu filho não fala. Eu entendo ele pelo olhar. Quando ele olha pra fisioterapeuta é de emocionar. Foi onde encontrei a força para lutar de novo. Rapidamente ele aprendeu a se sentar e se sustentar sozinho”.

Leandro com sua fisioterapeuta
Creative Commons – CC BY 3.0Leandro com sua fisioterapeuta – Arquivo pessoal

Ela, que teve citomegalovírus durante a gestação, conta que tinha perdido as esperanças com o desenvolvimento do filho, hoje com sete anos, por conta do tratamento que teve dos nove meses aos dois anos, em uma instituição pública de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, onde mora: “Ele não teve desenvolvimento nenhum nesse período, nem na fisioterapia nem na fonoaudiologia. Era superlotado e faltava estrutura, mas, principalmente, faltava o engajamento dos profissionais, o amor pelo trabalho”.

Foi graças à atuação do profissional de fisioterapia que Bianca, de nove anos, passou a se locomover sem ajuda. A mãe, Elaine Carvalho, conta que a menina fez um tratamento intensivo dos 8 meses até os seis anos. No começo, não tinha equilíbrio para engatinhar. Atualmente, anda apoiada nos joelhos. “Ela conquistou uma independência. Ainda não anda sozinha em pé, somente de joelhos. Mas não é por falta da fisioterapia, mas por ela não entender que em pé é melhor, já que ela faz tudo. Esse ano vamos iniciar uma fisioterapia lúdica, que concilia a educação física com brincadeiras que ela gosta, para mostrar como é legal fazer as coisas em pé e aguçar essa vontade nela”, explica.

De acordo com o médico Gustavo Adolfo Rodrigues Valle, presidente do Departamento de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), é essencial que a criança tenha acesso ao tratamento o mais cedo possível. “Sem a fisioterapia, a criança não vai se desenvolver por conta própria. Ela dificilmente vai galgar as etapas do desenvolvimento motor. Se essa criança tinha condição de amenizar, de ter uma qualidade de vida melhor, vai ter um prejuízo enorme. E é crucial que o estímulo seja primordialmente dos zero aos três anos”, recomenda.

Isso porque a fisioterapia, segundo ele, não colabora só para o desenvolvimento motor. Mas também exerce um papel fundamental nas habilidades cognitivas, de linguagem, sensoriais, dentre outras.

A neuropediatra Vanessa Van Der Linden explica que, nos primeiros meses de vida, a fisioterapia tem duas funções dependendo do grau de comprometimento cerebral: a estimulação precoce, para desenvolver ao máximo as potencialidades do bebê diante de suas limitações, e, para os casos mais graves, evitar lesões e problemas futuros, como deformações por conta da rigidez muscular, broncoaspiração e convulsões.

“É preciso lembrar que reabilitação não é cura. Não é por fazer a fisioterapia de forma frequente que a lesão vai desaparecer. Se a criança tem algum potencial a ser desenvolvido, a gente consegue melhorar com a estimulação porque a aprendizagem requer a vivência. Mas vai depender muito da gravidade da lesão. Em alguns bebês, sabemos que o retorno será pouco, por causa do comprometimento neurológico. Para esses, a reabilitação é importante a fim de evitar complicações importantes e melhorar a qualidade de vida”, pondera.

Ela afirma que, dos sessenta pacientes com microcefalia que acompanha na Associação de Assistência à Criança com Deficiência (AACD) de Recife, Pernambuco, a maior parte apresenta músculos rígidos (hipertonia), excesso de reflexos (que faz com que a criança se assuste mais facilmente, por exemplo) e irritabilidade, com choro excessivo e refluxo. Há crianças que apresentam, no entanto, a hipotonia (com músculos flácidos), deficiências auditivas e visuais. Devido à variedade de casos, cada criança deve ter um atendimento personalizado.

Na opinião do médico Gustavo Valle, no entanto, o país infelizmente não tem condições de oferecer o tratamento adequado para todas essas crianças. “As pessoas que têm um nível aquisitivo melhor fazem o tratamento privado. Mas a maior parte da população que está sendo vítima do vírus Zika é de baixa renda. O governo não tem instituições que possam abarcar no momento com todas essa demanda”, opina.